A (des) floresta

A floresta em Portugal é um sector económico crucial responsável por 10% das exportações o que lhe corresponde a 4 mil milhões de euros. As três fileiras principais – sobreiro, pinheiro e eucalipto – criam muitos empregos, sobretudo a fileira do pinheiro (54 mil empregos, 5 mil empresas de mobiliário). Portugal é o 1º produtor mundial de cortiça, a qual já se utiliza em sectores de alta tecnologia. Exportamos também papel de alta qualidade.

E, no entanto, a floresta anda enleada em sarilhos. Fragmentária, ardida, doente e desleixada, o Estado não lhe tem valido e têm sido sobretudo as celuloses que vão fazendo de “mão invisível” a conduzir a floresta. E, assim, ela vai continuando sem uma gestão activa, apesar de possuirmos desde 2006 uma Estratégia Nacional, Planos Regionais de Ordenamento e Zonas de Intervenção Florestal (ZIF) – que resultam da associação entre proprietários para gerir áreas de dimensão razoável. É que somos o país da Europa onde há mais floresta privada (98% dos quais 8% baldios), possuindo o Estado apenas 2%. Só para termos uma ideia das diferenças, na Suíça o Estado possui 72%, na Alemanha 55% e em Itália 35%. Com uma grande multiplicação de donos – mais de 500 mil com uma média de 2 ha a 3 ha por propriedade – nunca se conseguiu avançar com um cadastro, apesar de se falar dele há décadas. Nem se cumpriram os Planos Regionais, nem se apoiou o funcionamento das ZIF. Não se conseguiram resultados no estudo e combate às graves doenças do pinheiro bravo e do sobreiro (a árvore nacional!). E, quanto aos incêndios, apesar do desordenamento florestal ser a primeira causa desta tragédia, a aposta continua a ser no combate e não na prevenção e cura. Há muito que esta situação cheira a esturro, mas mantém-se.

Ora, com este panorama, o Governo prepara-se para lançar uma lei avulsa, alheia a um programa de gestão florestal e que se arrisca a agravar todos os desequilíbrios já consensualmente identificados. Trata-se de uma lei que pretende liberalizar a instalação expedita de “espécies florestais” – mas que será obviamente aproveitada para eucalipto – em parcelas de terra pequenas (menos de 2ha ou 5 ha), incluindo áreas de regadio e até áreas protegidas. Escancara-se o espaço nacional à multiplicação de eucaliptal em todos os lugares. Mais. Sabendo-se que a extrema fragmentação de propriedades ocorre nas áreas de maior fragilidade tanto ecológica como humana, não é difícil imaginar o volume de eucaliptos que irá de repente aparecer por toda a parte. É certo que esta desgraça já acontece hoje com os inúmeros povoamentos clandestinos que por aí existem. Mas legalizar o erro não é corrigi-lo; é agravá-lo.

Sabe-se bem a enorme importância económica que a floresta representa. Mas sabe-se igualmente muito bem que o eucaliptal não tem falta de área, mas sim de qualidade de gestão. No país apenas se aproveita cerca de 1/3 da produtividade do eucaliptal já instalado. Existem cerca de 10 milhões de metros cúbicos de povoamentos com idades excessivas que deveriam ser cortados antes que ardam e a densidade de muitos destes povoamentos poderia ser duplicada, sem precisar de aumentar a área. Nestas circunstâncias, proporcionar ao eucalipto novas áreas, e sobretudo áreas preciosas para outras produções e outros usos, é ruinosos e de vistas curtas. 

O país precisa de pensar a sua floresta de forma orgânica e programada a várias escalas de tempo. Esta lei é a versão florestal da Campanha do Trigo, cujos malefícios ainda hoje pagamos… e bem caro.

Palavras de Luísa Schmidt no Expresso desta semana

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